sexta-feira, 19 de junho de 2026

 

DE MANÉ A MANÉZINHO

Ilha de Santa Catarina e lado do continente

Santa Catarina – Brasil

 

Vamos saber um pouco do “ser mané”

 

Tempos não muito distantes, gente da cidade, apelidavam alguns moradores do interior da Ilha de Santa Catarina de mané.

A “Cidade” em referência, “Florianópolis”, assim também chamada por todos que moravam no lado continental.

Suposições apontam aos nomes Manuel ou Manoel, muitos comuns em todas as regiões litorâneas, especialmente nos povoamentos do interior da Ilha de Santa Catarina.

Seu Manoel, seu Manuel, seu manéca, seu maneu(l), seu mané, nomes que pode ter sido o caseiro, um sítio ou casa de veraneio de propriedade de alguém da “Cidade”.

Seu mané, sempre tratava essa gente da “Cidade” de doutori, ou seja, pela formação profissional, Poder ou posses.

O mané pode ser caracterizado como um sujeito simplório, contador de causos, um matuto de trabalhos pesados, lida com bois e da roça. Uns dos trabalhos de engenho, outros da pescaria e outros de qualquer serviço braçal.

Mas, os autênticos manés, eram os malandros, exibidos de vida boa. Aqueles que usavam uma perna da calça arregaçada até a metade da perna, um pouco abaixo do joelho e que por distração, se exibiam com uma gaiola na palma da mão, dentro um curió, um sabiá, uma tia chica ou um coleirinha a dobrar, cantar.

Aquele ou aquela que, come um loc loc (pirão de café) com peixe frito frio, ou ainda, aqueles que comem pirão d’agua escaldado ou jacuba com carne seca de varal, assada numa grelha na brasa de fogão de lenha.

Aqueles que por várias gerações, abandonados à própria sorte pela gente da “Cidade ou Praça” , longe da escola, criaram seus meios de subsistência, modos de falar próprios, engraçados, que os identificam como o mané ou a mané interiorana da Ilha, assim como também, nos povoamentos do litoral do lado continental.

-Frases, ditos e palavras como:

 “mofas com a pomba na balaia”,

“farinha pouca, meu pirão primeiro”,

“coberta d’alma”

“chichilaria”

“roubar e fugir com a rapariga, depois mais tarde casar”

“Achas pouco, ou quéz mais”

“oioió ..oioió.oioió...

“táz tolo táz”

“o vento tá de rebojo”

“és bom pro fogo”

“intizica pra tu vê, o que vai te acontecer”,

“te toco a mão nos cornos”

“cambulhão de peixe”,

“boi ralado (carne moída)”

“eu atiço a bucica em cima de ti”

“oh seu istepô ( r )

“me deu uma digerinha, uma caganeira”

“apaga apomboca e vai dormir”

“lanço de peixe”

“tarrafa a vau”,“ garapivu”, mata-fome, “és bom pumbife”, “cara de areia mijada”, “dar de mamar a enxada”, “se quéx quéx, se não quéx diz”, seu  tolo e muitas outras.

 

Glossário mané

 

Atiçar - incitar

Bucica – cachorra, cadela

Boi ralado – carne moída

Jacuba do tupi-guarani - pirão de água fria

Cambulhão – porção de peixes enfiados pela guelra em cipó à serem vendidos.

Cara de areia mijada –  furos no rosto de quem teve varíola

Xinxilaria – burocracia, lenga lenga, enrolação  com papéis

Coberta d’alma – roups de quem morre

Dar de mamar a enxada – preguiçoso na lavoura, cabo da enxada debaixo do braço

 Diigerinha – diarréia

És bom pro fogo - expressão usada para dizer que uma pessoa não presta (também ameaça debochada, de mandar alguém à fogueira.

És bom pumbife – referindo-se a carne do boi de farra

És um porta-milá–perdido, andar sem rumo ou importa-me lá contigo

Intizica – provoca

Istepô ( r ) – expressão de xingar alguém, seu coisa ruim

Lanço de peixe – cercar o cardume com rede, arrastar, puchar para a praia ou embarcação pesqueira. Locais de peixes de tarrafa a vau.

Loc loc – pirão de café, mexido na própria caneca de tomar café.

Mandrião – preguiçoso

Mata-fome – prato de barro de se comer

Mofas com a pomba na balaia – vais cansar de esperar, não conseguir o que queria, intento

Oioió – interpétra-se como interjeição de espanto ou admiração

Pomboca – lamparina pequena de pavio, acesa com querosene, luz de pomboca

Rebojo – vento que sopra de várias direções, ocorre quase sempre com vento sul ou leste (lestada)

Te toco a mão nos cornos – dar uma bofetada na cara de alguém

Vau – trechos rasos da beira do mar ou de rio, onde se pode transitar a pé.

Tolo – credibilidade frágil, sofrível. Não se refere a debilidade mental.

 

Vamos saber um pouco do “ser manézinho”, evolução do mané

 

Na verdade, não se atribuía a alguém, como o criador do pseudônimo manezinho.

Em inícios dos anos 80 do século passado, nas áreas centrais de Florianópolis como do lado continental, ouve-se em rodas de amigos, locais de trabalho, bares, botequins e principalmente no Mercado Público, colegas e amigos serem chamados de manezinho.

Geralmente ou quase sempre, esse colega ou amigo assim chamado, morava em alguma comunidade do interior da ilha de Santa Catarina.

A partir de então, esse pseudônimo, que pode ter derivado do seu Manoel, seu Manuel, seu manéca, seu maneu ( l )l, seu mané, começa a difundir-se na boca do povo com apelido de manezinho.

Até a primeira metade da década dos anos 80, ser chamado de manezinho, tinha sentido pejorativo. No entanto, por muitos havia aceitação, dentro de um clima amigável e na base da gozação.

Nessa época, já estava a se destacar programa de rádio como radialista, o saudoso Aldírio Simões.

Aldírio, constituía-se num personagem carismático, identificado com nossa cultura de base açoriana.

Seu ponto de encontro diário, o Mercado Público de Florianópolis, além de viver os cantos e recantos da Ilha e do continente, a conhecer sua gente, seus hábitos, usos e costumes.

Nascido na localidade de Rio do Braz em Canasvieiras, Aldírio, destacou-se como radialista, repórter, jornalista, escritor e apresentador de TV.

Na TV, criou e apresentou o famoso programa BAR FALA MANÉ.

Em meados da década dos anos 80 como radialista, idealiza uma forma de homenagear, enaltecer o mané manezinho, que tomou proporções do linguajar popular entre nós.

Todos aqueles ou aquelas, que se identificam com a maneira simples de viver os nossos usos, costumes, ajuda mútua e solidariedade dos nativos interioranos da Ilha e do continente, ou ainda, todos aqueles ou aquelas que, para cá vieram, se adaptaram a viver essa identidade de simpatia, esse estado de ser e que, destacam-se perante a comunidade.

Em 1987, elenca os nomes dos manezinhos a serem homenageados e organiza a primeira edição do Troféu Manezinho da Ilha.

Tinha no amigo manezinho e saudoso Francisco Amante, o popular Chico Amante, os préstimos e suporte da organização burocrática dos eventos.

Aliás, em matéria de organização, Aldírio era muito bom de improvisação.

Testemunhos relatam que, “nas primeiras edições do Troféu, alguns manés elencados por Aldírio, se mostravam reticentes com a homenagem, dado ao sentido pejorativo de outrora do pseudônimo manezinho”.

O prestígio de Aldírio cresce nos meios de comunicação, enaltecem a honraria do Troféu, mudam o conceito e o entendimento de “ser manezinho”.

Nos anos que seguiram aos dias de hoje, prestígio ser nomeado, ser chamado, escolhido para receber a honraria do Troféu  Manezinho da Ilha.

Num bom sentido, diz o manezinho, nosso amigo, Engenheiro Paulo Ricardo Caminha: “o Aldírio atirou no que viu e matou o que não viu, referindo-se ao auge de sua projeção com o Troféu Manezinho da Ilha”.

Embora sendo o autor intelectual do Troféu e dos agraciados, o nosso Mané Mor, cercava-se de uma Confraria que oferecia palpites para os novos a serem escolhidos.

Entre outros dessa Confraria, faziam parte o saudoso Chico Amante, o ex-Secretário de Segurança, Maurício Amorim, o Engenheiro Paulo Ricardo Caminha, o Poeta Luiz Gonzaga Galvão e o bancário Ire Silva.

Registra-se que além dos cenários criados para gravações na TV, vários programas itinerantes foram gravados em bares e restaurantes populares no interior da Ilha-SC, São José (Shopping Itaguaçu), Palhoça (Praia do Sonho, Ponta do Papagaio) e outros municípios vizinhos.

Após a morte de Aldírio em 2006, incorporou-se a Confraria, seu filho Sione Márcio Simões, que organiza a tradição anual do Troféu Manezinho da Ilha.

 

Guga, o manezinho

 

A internacionalização do “ser manezinho”, foi conhecida e difundida, diante da mídea mundial pelo maior tenista brasileiro de todos os tempos.

Gustavo Kürten, o nosso Guga, que no topo do ranking da ATP, chamou para si o título de Manezinho da Ilha.

O mundo conheceu um “manezinho impar”, que levou sua simplicidade com competência de grande campeão das quadras de tênis do mundo, Grande Campeão de Roland Garros.

 

Contos que conto

Quem conta um conto, aumenta um ponto  .  º

              -dito popular-                                          

Texto: Gilberto J. Machado

                   Historiador

 

quinta-feira, 18 de junho de 2026

 

 

PESCA DE CANIÇO

POEMA

 

Cacos de Infância, filhos das olarias & pesca na pedra

 

Ah, como gostaria de voltar a ser criança

Juntar cacos na areia da praia e fazer tudo de novo

Ao mar sereno arremessá-los, imitando os peixes rei

Aqueles cacos bem polidos, alguns em forma de ovo

Ainda na memória guardo, o jeito que arremessei

 

Com as mãos cheias de cacos

Eram brinquedos que se brincava

Da alegria que se sentia

Quando o caco no mar pulava, saltitava

 

Aos poucos, outros iam chegando

Todos juntavam seus cacos, a virar competição

Os cacos tipo peixinhos, iam sendo contados

E quem mais fazia peixinhos, se gritava campeão

 

Hoje se pergunta, onde estão todos os cacos?

Porque desapareceram das praias?

Ou isso é para quem lembra o tempo do pote e do jarro

Que sumiram como oleiros e as olarias de louças de barro.

 

Sim, os cacos eram pedaços

De louças de barro que se quebravam

E que não serviam nem para vender

Então, nas praias e ao mar eram jogados

Como forma de se desfazer

 

Quase dois séculos depois

Surrados de se bater, na praia e nas areias

Nas ondas de maré baixa ou maré cheia

Os cacos da ignorância, viraram brinquedos de criança!

 

&

 

Como não lembra das pedras batizadas

Está lá a pedra rachada

Imponente e dos bons mergulhos

Para subir, todo cuidado com a parte quebrada

 

E a famosa pedra da cadeira

Cadeira que se senta na pesca de caniço

Saudades do caniço, que se fazia de bambu

Das pescarias da pedra e dos peixes mais comuns

Canhanhas, cocorocas, garopetas

Badejos, marimbais, sargos e robalos

Peixe rei, escrivão e baiacu

Iscas de barata, tiradas da toca com vareta de bambu

 

Da cadeira, olha-se para trás

Mais que parece ser um enclave

Pedras altas, a praiazinha da burra, burra não sabe porque

Bambus e cachumbeiras a proteger

 

Lá na laje do conão e do Ricardo

Se corria a mergulhar em dias de verão

Hoje uma pedra esquecida por quem vive o lugar

Uma praia esquecida, acabou os mergulhos e banhos de mar

 

E lá está a pedra do quebra-dente

Dente que se quebrou, quando a canoa embicou

Marco da massambaba que o indígena chamou

Lagoinha que liga ao mar, piriri, cachumbeiras e bambus

 

Do marco do quebra-dente, se avista a laje de fora

Pedra de bons peixes de fundo e profundezas

Onde se avista ilhas e paisagem beleza do continente

Pesqueiros de redes e espinhéis, se rema de mar afora

 

Pela pedra do cabeço, se passa e se chega a outra

A outra que é rachada, essa dos peixes grande, os tejo

Tocas de fundo desconhecidas, pesqueira com manejo

Pesqueira de garoupas, caranhas e badejos

 

E de lá de fora ou de dentro, se avista a pedra comprida

De fora da Ilha grande, boa profundidade e pesqueiro

Pedra dos peixes miraguaia e burriquetes

Pesca de caniço, caceio e de fundeio.

 

Por última e que não seja, a pedra do mané João

Lá no fundo do mar, desafios de canoeiros

Maré baixa, maré alta a saber

A quilha ou leme a se perder.     ....................

 

 

Este poema é dedicado a história de quem viveu e vive na localidade da Ponta da Baixo - São José-SC

 

Autor:  Acadêmico Gilberto João Machado

Cad. 3 - ASAJOL – Academia São José de Letras

Patrono: Dom Jaime de Barros Câmara

 POÉTICO

-CINEMA DA PRAÇA-

Cine Rajá – São José – SC

Theatro Adolpho Mello

 

Havia um tempo muito jovem

Lá na praça, a matinê, cinema com amigos

Depois contar o filme, o mocinho com vantagem

O amendoim torradinho como lanche, bom papo amigável

Troca-troca figurinhas, um monte de gibis

Que saudade dessa turma, daquele papo saudável

Lembranças do personagem Nini

Olhares que vão pro mar, vela içada ao vento

Singrava águas uma canoa, destino incerto

Talvez, alma das ilhas de além-mar

Insiste o filme a lembrar, memórias que vem de lá

E o tempo se passou, voltamos ao cenário

Agora no palco sem filme, sem ilusões, plateia na fantasia

No Teatro do cinema, Diplomas, Medalhas da Academia

 

Poético

Gilberto J. Machado

Cad. 3 – ASAJOL – Pat. Dom Jaime de Barros Câmara

quarta-feira, 17 de junho de 2026

PANELA DE BARRO

modelo marmita

louças de barro utilitáriaOlarias de São José - SC, sul do Brasil


marmitão
oleiro Vilson Marino da Silva

maneoleiro,blogspot.com

Oleiro Gilberto J. Machad
 
Cad. 3 - ASAJOL - Pat. Dom Jaime de Barros Câmara 





 

BOIÃO DE QUARTILHO

louça de barro utilitária, olarias de São José-SC




 

Boião de quartilho é um vasilhame para leite, especialmente para coalhar (qualhar). Desse processo artesanal, se faz queijinho/queijadinha. Se produziu em cento, ou seja, grupo de cem unidades, grande quantidade para serranos, criadores de vacas leiteiras, de sítio e vacas de pastagem domiciliar.

O uso para o coador de café foi e é uma adaptação de serventia na cozinha, usado como guarda para reaproveitar o café, ou seja, passar duas ou até três vezes. Tempos de vacas magras, dito popular.

Quartilho é uma antiga medida correspondente a ½ litro.

Criou-se do boião de quartilho, modelos maiores para outros líquidos.

REGISTRO

“Em 1963, a atual Escola de Oleiros foi o meu aprendizado. Uma das peças iniciais foi o boião de quartilho. O Senhor Joaquim Antônio de Medeiros, proprietário da olaria, furava com o dedo, todos os biões que fugiam do seu padrão.

Bom, eu ficava p. da cara, porém tinha que aprender e deu no que deu, aprendi...”


 

 

 

Maneoleiro.blogspot.com 

 Oleiro Gilberto J. Machado

Cad. 3 – ASAJOL – Pat. Dom Jaime de Barros Câmar

sábado, 13 de junho de 2026

 LEITEIRA

louça de barro utilitária, olarias de São José-SC



O que define uma pichorra?

Pequeno jarro com bico, pichel.

 

Pichorra, inicialmente constava nas listas de produção das antigas olarias.

Consta-se que, o nome leiteira, vem de fora para o meio dos oleiros, através da utilidade de donos de vacas para vender o leite.

Produzida em dois tamanhos, grande e pequena, adaptada na cozinha para coar o café e servir também o leite.

 

Para os antigos colonos do interior, áreas rurais de São José, Palhoça, Biguaçú e povoados da Ilha de Santa Catarina, assim chamada “pichorra”.

 

Tempos de exposição nas prateleiras das “vendas”, a pichorra teve seu tempo de serventia

como utilitária de copa e cozinha.




maneoleiro
Oleiro Gilberto João Machado



sexta-feira, 12 de junho de 2026

 

CANJIRÃO, CANJERÃO

louça de barro utilitária, tempos das olarias de São José-SC

Jarro de barro com bico para vinho, tamanho grande e pequeno com alça, ou asa, também serve para outros líquidos caseiro, ou seja, líquidos produzidos em pequenos sítios ou de forma domiciliar.

 Modelo trazido pelos portugueses açorianos desde as primeiras olarias de São José.

Em final da década dos anos 50 do século XX, por encomenda, ainda se produzia na olaria de Ricardo Crispim dos Santos na Ponta de Baixo.




Mané oleiro

maneoleiro.blogspot.com

Oleiro Gilberto J. Machado